Uma das vantagens de uma boa semana de moda é o imprevisível. Certos desfiles provocam arrependimento de ter enfrentado um voo de 11 horas. Outros surpreendem, porque no passado eram descartáveis, de tão fracos. A quarta-feira foi assim. Uma apresentação mostrou o lado de impacto da performance, outra chegou a ser decepcionante.
Acne Studios, pouco
A marca sueca era uma novidade no jeans, quando começou a se apresentar como show room em um prédio antigo de Paris,. Agora que a Acne participa da agenda oficial precisava ter mostrado algo mais. Maioria das peças, calças e paletós, em aspecto couro. Ternos verdes, paletós com escurecido em alguns pontos, como se fossem envelhecidos (isto, interessante). O jeans fica entre os rasgados (ainda!) e uma lavagem drástica, que praticamente elimina o indigo do tecido. Nos acessórios, brincos para todos, homens e mulheres, botas longas com traços western e bolsas de todos os tamanhos, com franjas arrastando pelo chão. A beleza tem personalidade, mas deu um pouco de pena de ver os modelos com parte da cabeça raspada, uma trança nas costas e uma franja picotada. Se não foi peruca, esta turma não faz nenhum outro desfile.
Dior, o que dizer?
Já reparei que, quando o desfile é de uma marca importante, tradicional ou que anuncia muito, as análises correm por outros lados. Falam do ambiente, do quarto da nobre austríaca (Vuitton), da projeção de estações antigas (Dior), dos acessórios (botas do Acne Studio). Comigo, acontece com este Dior, do Jonathan Anderson. Proporções estranhas, vestidos e saias com volume na frente, parecendo um traseiro ao contrário, micro tudo: vestidos, tailleur, saias; balonês curtos, embolados. Um vestido com a saia toda montada em retângulos, como pilhas de cartões, leotards ou segundas-peles com peitilhos brancos, uma veste com um pregueado triangular na frente. Nas cabeças, chapéus parecendo feitos como origamis. A beleza sem glamour e a platéia também iluminada, integrando o desfile aos convidados. Foi a estréia do Jonathan Anderson, americano respeitado pelo espírito inovador. Sei não: nem no tempo do querido Marc Bohan vi um Dior tão esquisito. Desculpem, tenho que repetir: saudades do John Galliano.
Primeiro, um desfile espontâneo, uma confirmação de estações passadas no belo hotel Intercontinental. Quanto à coleção, que surpresa! Balmain costuma ter extravagâncias na fronteira do cafona. Pois desta vez, a mudança de mood começou com a trilha de um concerto para violinos de Bach, Olivier Rousteing surpreendeu com uma linda série de drapeados em todos os sentidos dos corpos, atravessados, pregueados e franzidos. A base foi uma calça bufante, que podemos denominar bombacha e tops desde blusas de alcinhas até vestes de lapelas largas. Alguns macramês reforçando o foco artesanal, repetido nos muito colares e nos cintos de corda. Além dos cintos, escarpins de salto invertido e óculos de lentes rosadas. Muito bom, o Rousteing!
O desfile Saint Laurent foi perfeito, como coleção, como espetáculo. Mas Tom Ford…arrasou. Na espera, muita fumaça e um som de túnel, no escuro. Quando a luz acendeu, tudo deu certo. Desde a coleção de ternos sedosos, em verdes, azuis, rosas, com cós elástico, os blusões secos, só com fechos. Haider Ackermann, que substituiu Tom Ford, continua a impor sensualidade, desta vez nos longos com fendas altas ou decotes abaixo dos umbigos. Ou longos com a frente montada aramada, acompanhando o movimento do corpo. A simplicidade,foi realçada pela performance: no grande espaço quadrado homens e mulheres andavam devagar, se olhavam, interagiam, todos lindos. Tipo de evento que vale sair de casa e ter o privilégio de dizer que estava lá.

