Daniel Roseberry criou Schiaparelli inspirado em livro de Irving Stone (fotos divulgação)

Como definir a Alta Costura? Já foi uma exibição de costura artesanal, vista por plateias milionárias, que talvez se interessassem pelas roupas feitas sob medida em tecidos exclusivos. Os desfiles eram em salas pequenas, com passarela ou tapetes. Uma funcionária da Maison anunciava o número de cada modelo, para facilitar a escolha das clientes. Às vezes o número era acompanhado pela descrição da roupa, qual era o tecido ou o estilo. Em resumo: quase um ritual. Nas poucas vezes em que vi uma apresentação destas quase morri de tédio.  A partir dos anos 70, quando a semana do prêt-à-porter ganhou força, a HC (Haute Couture) passou por uma fase, mais fantasiosa, baseada em 20 nomes estabelecidos na lista da  poderosa Chambre Syndicale da moda de Paris. Pairava a eterna ameaça de extinção deste tipo de roupa conceitual. Quem salvou? A compra de várias marcas tradicionais parisienses pelos grandes grupos empresariais. Como quem produzia os conhaques e champanhes da linha Moët Hennessy, que virou o LVMH e o pessoal do Kering, antigo PPR, de Pinault, Printemps, e o catálogo La Redoute. Substituíram os titulares originais por jovens alunos de escolas londrinas e as marcas abriram um setor mais exclusivo: o luxo.
E agora? A lista de participantes pode chegar a 30, incluindo os tradicionais e os aspirantes a entrar neste universo que exige um mínimo de 20 a 30 artesãos, um ateliê em Paris e uma coleção de pelo menos 20 looks, entre modelos para dia e noite. Os convidados devem participar por quatro anos, até serem admitidos na lista oficial. E o que é visto atualmente nas coleções? 
Primeiro, os desfiles têm como concorrentes os convidados e celebridades fotografados no backdrop, o painel que equivale aos tapetes vermelhos americanos, com os logos das marcas ou dos patrocínios. Cada marca importante tem seus embaixadores que representam o estilo. A moda agora é contratar atores como Song Kang (Loewe), Park Bo-gum (Céline), a maioria da Coréia do Sul. Em segundo, há uma busca de emoção, algo além das sugestões de roupas exclusivas e das pesquisas com novos tecidos desenvolvidos até em 3D em impressoras..
Quase feio
Definitivamente, ninguém quer mais saber de perfeição, de acabamentos primorosos. O que predomina é o conceito waki sabi, a filosofia japonesa que preza a imperfeição, a falta de acabamento, o quase feio. Em segundo lugar, há a emoção que inclui as trilhas dos desfiles e segue pelos conceitos inspiradores das coleções. 

Charlton Heston como Michelangelo no filme Agonia e êxtase

Por exemplo, que tal ter Agonia e Êxtase inspirando Daniel Roseberry na Schiaparelli? O livro (também tem o filme, dirigido por Carol Reed) do Irving Stone sobre Michelangelo, na fase do teto da Capela Sistina, se transforma em roupas de recortes, relevos que parecem serpentes, tecidos com jeito de verniz, mas fluidos. A peça básica é o corpete, o corselet. E muito branco, lembrando que é criação para o inverno 26/27. Uma bela coleção, do ponto de vista criativo.

 

Se Agonia e Êxtase parece pesado, a inspiração pode ser mais infantil. Como os contos de fadas que Matthew Blazy andou lendo e misturou com referências nas coleções da própria Chanel. Mas tudo renovado: o tweed pode ser feito de jeans, as calças podem ter bainhas desfiadas, inacabadas.os sapatos podem ser em forma de galinha, ovos, bichos de fábulas. Como no prêt-à-porter, Blazy usou ráfia e plumas dando margem para o lado conceitual. Foi mais um belo desfile Chanel.

 

Outro “novato” que está acertando o passo com a Dior, Maison onde trabalha, é o Jonathan Anderson. Sinceramente o que foi aquele primeiro desfile prêt-à-porter no ano passado? Nesta Alta Costura Anderson deixou de lado os volumes estranhos, investiu em amarrados, nós, drapeados e plissados. Também com barras desfiadas, bordados com fios soltos, inacabados – talvez para valorizar o trabalho das bordadeiras?- e até a revisão de peças originais do Christian Dior, como o famosos tailleur Bar, o que deu origem à expressão New Look.

 

Cristóbal Balenciaga foi um grande designer, verdadeiro arquiteto da moda. È difícil continuar sua Arte. Ainda falta alguma pesquisa por parte do Pierpaolo Piccioli para cumprir esta missão quase impossível. O que ficou mais evidente foi a série de vestidos pretos com punhos e golas brancas, as cores marcantes como o verde e principalmente o roxo. Muito branco e preto como gostava o Mestre espanhol. Uns detalhes a mais: o desfile foi em um jardim, modelos passanbdo em volta de um canteiro circular, a plateia sentada em volta, em círculo, em bancos coletivos. SEM ENCOSTO, aquela maldição para as lombares dos convidados. Mas a música era boa, um cover de Perfect Day, do Lou Reed.
Yves Saint Laurent não desfilou. Maison Margiela preferiu mostrar a coleção em Xangai. E a tal lista de participantes abriu para o mundo. Já tivemos Ocimar Versolato desfilando na Alta Costura nos anos 1990 e Gustavo Lins ainda consta da lista oficial da Câmara Sindical. 
E esta Arte da moda continua firme, enquanto a Fast Fashion luta para sobreviver. Porque a Alta Costura não pretende vender. É a expressão da criatividade de quem trata roupa como escultura, pintura, poesia e teatro.