Estou lendo: “Por dentro da moda – definições e experiências”, da Dinah Bueno Pezzolo, que saiu pela editora Senac São Paulo e conta histórias da moda desde a invenção da máquina de costura, que ajudou a disseminar este nosso fenômeno favorito, até o dia-a-dia de uma cobertura internacional.
Dinah foi uma das companheiras de semanas de moda, como editora do Estado de São Paulo, batalhando para entrar nos desfiles superlotados nos anos 90, enfrentando mal-entendidos no credenciamento – como a repórter free-lancer que recebia os convites internacionais no seu lugar. Fiquei solidária ao ler que ela também ficou do lado de fora de um desfile do Kenzo, de entrada infernal, mesmo para quem tinha convite com lugar marcado. Nem fiquei sabendo na hora, tal era a confusão. Algumas vezes voltamos no mesmo vôo, nos cumprimentamos e ficou por aí o papo, porque as duas estavam arrasadas de cansaço depois de uma destas semanas doidas.
Um dos capítulos do livro é dedicado a uma autoentrevista, em que Dinah responde a perguntas freqüentes. Um exemplo:
Como deve acontecer a formação do jornalista de moda?
R.: Jornalistas interessados em atuar em moda deverão cursar uma boa faculdade específica. Hoje existem mais de 30 delas e cerca de 250 cursos de nível superior voltados a esta áera. Mas diploma não é tudo. É preciso ter em mente que o mercado é restrito e extremamente competitivo, portanto é natural que os mais capacitados se destaquem. Além de gostar de moda, é importante cultivar o hábito da leitura e da pesquisa. Infelizmente existem poucas publicações nessa área em português.
Ok, concordo, apesar de atualmente o diploma de comunicação estar em vias de ser dispensado. E apenas um curso de moda não ajuda ninguém a escrever direito.
Em compensação, discordo desta resposta:
O que podemos dizer sobre a moda brasileira nos últimos anos?
No Brasil, ainda não existe uma cultura de moda. Não temos tradição se comparados aos países europeus, por exemplo (a França em especial). O primeiro passo para tratar a moda com seriedade se deu em julho de 1996, com a primeira edição da semana de moda, o Morumbi Fashion, com desfiles de 50 minutos e nenhuma estrutura. Hoje, sob o nome de São Paulo Fashion Week (SPFW), o evento é realizado no prédio da Bienal, no Parque do Ibirapuera, com a presença da imprensa brasileira e representantes estrangeiros. O SPFW organizou o mercado de trabalho e hoje faz parte do calendário mundial. O Brasil caminha a passos largos, mas ainda há muito a trilhar.
De 1996 a 2008 são apenas 12 anos, isso não significa nada no mundo da moda. Antes, não havia seriedade na moda brasileira, tampouco interesse do público. Tudo era cópia, e as diferenças entre as estações do ano européias era um agravante.
Bem, colega Dinah: e o Fashion Rio, que no princípio se chamava Semana de Estilo Leslie, que começou em 1992? Era exatamente o mesmo formato de São Paulo, que só começou em 96, quatro anos mais tarde. A estrutura paulistana era pouca, mas existia com bastante dignidade. E 12 anos podem significar muito, no mundo da moda. Basta ver o sucesso alucinado da rede sueca H & M, que depois que entrou na fast fashion (a marca existe há umas quatro décadas), virou referência de consumo.
Enfim, são opiniões próprias e respeitáveis. O livro “Por dentro da moda” é uma visão de uma editora que escreve, fotografa e desenha – a maioria das fotos e ilustrações do livro é da Dinah.
Oi Iesa,
uma graduação de jornalismo ou comunicação não ensina ninguém a ser um bom jornalista ou ensina alguém a pensar e escrever.
Temos péssimos jornalistas de moda no Brasil que possuem faculdade de jornalismo, assim como temos profissionais da área têxtil, confecção, moda e pesquisa que são ótimos jornalistas de moda.
E aí, como resolver esse impasse?
Aguardo resposta.
Paula, a gente sabe que é assim em todas as profissões, principalmente as que não exigem técnicas específicas. Padeiro tem que saber fazer pão, pedreiro tem que botar tijolo, mecânico tem que consertar.
Mas jornalista, todo mundo acha que pode ser. Não é o curso que resolve, é o fato de querer informar a um determinado grupo de pessoas (leitores, ouvintes, telespectadores, etc) algo quer considere interessante ou importante para aquele grupo. Se souber escrever bem, ótimo. Se souber dizer onde viu, como era, quanto custa, já basta para um bom serviço na área de moda. Ou quem vestia, onde vende, como usar.
Tudo, com a maior isenção possível. Ninguém diz que um vestido é lindo, só porque a dona da marca é a filha do governador. Nem que um sapato é maravilhoso, porque o estilista deu um de presente para a repórter.
Ética se aprende na educação. Olho para a notícia nasce com a gente. Escrever bem é questão de professores bons, muita leitura e prática.
Diploma? Bom, ok, para quem tem. Como você diz, não é o canudo que garante o bom profissional.
Beijo, Paula / iesa
PS: meu diploma é de designer gráfico.