Lembranças de viagens são subjetivas. Já ouvi amigas comentando que detestam Paris, uma cidade muito velha, que a comida era horrível. Em compensação, companheiros de um grupo de jornalistas de turismo acharam graça da invasão de macacos no café da manhã em um hotel da África do Sul. Enfim, lembranças dependem de quem vive aqueles momentos. 
O André Namitala se encantou com o Japão. Além de referências em alguns trajes orientais, nas casas de banho, tecidos preciosos e nas lindas cerâmicas, ele trouxe a trilha para o desfile da Handred. 
A música de um show de moda é um fator importante. Pelo que vi no vídeo, senti que ia no mínimo desconcentrar com os tambores Taiko, do grupo Todoroki Daiko, de Osasco. São maravilhosos como espetáculo. Mas para uma apresentação que durou mais de 10 minutos, achei demais. Ou você desfila ou apresenta os tambores. 

Tambores a toda!

Sinto começar o comentário pelos tambores, por aí dá para ver como competiram com a coleção. Mas vamos à Vapor em Curso, nome do inverno da Handred. Entre looks femininos e masculinos, há bermudas largas, algumas com brilhos de bordados, calças com corte arredondado, boas sobreposições com coletes, algumas intervenções em dourado.
 Namitala tem seguido um rumo diferente do visto nas vitrines da loja de Ipanema, quando as peças em linhos e cores neutras eram a cara do Rio. Desde o RioFashion seu empenho parece ser mais vanguarda, mostrar um estilo mais dirigido para um público que exige originalidade, mais do que a elegância básica, com as alterações do André, que diferenciavam a marca de roupas banais.
O destaque desta Vapor em Curso é a linha de trench coats. Desde o quase clássico até um maxi, perfeito para as passagens pelos tapetes vermelhos ou pela paradinha no backdrop (quem disse que precisa chover para vestir um belo trench?)
E mais: sobre as músicas de desfiles, também tenho lembranças. Uma das melhores foi encontrar no meu lugar uma fita cassete com a trilha do desfile do Valentino. Outra, a ColdSong, cantada pelo Klaus Nomi, em um Balenciaga (aquele tipo de música que a plateia desconhece e sussurra “quem é? Que música é esta”). Todas as músicas escolhidas pelo Ronaldo Fraga. Ou a Anunciação, do Alceu Valença, ouvida com um sanfoneiro ao vivo em um desfile no Dragão Fashion. Foi arrepiante, só não lembro a marca, desculpem. Outra experiência inesquecível foi um desfile da Second Floor, quando era apenas a frase You can talk to me era repetida (verso da música Hey Bulldog, dos Beatles). Ou uma Alta Costura do Yves Saint Laurent ainda vivo, sem música, só o barulho de passos. Entre os DJs, aposta certa é no Zé Pedro, capaz de ir da bossa nova a um jazz intrigante.
Algumas sugestões que funcionariam, sem competir com a harmonia das coleções: A matter of feeling (Duran Duran), a Magic, do Coldplay. Algum Michael Jackson, como o Off the Wall. Para uma moda praia, a Cheia de Charme, do Guilherme Arantes. Nada contra batuques, lindos do Todoroki Daiko, ainda vou assistir só vocês, sem passagens de bermudas e trench coats. Já tivemos um desfile da Salinas, dirigido pelo brilhante Gringo Cardia, com a passarela ladeada por integrantes de uma bateria de Escola de Samba. Maravilhoso.