Desfiles Milão / Gucci

Acho que a Gucci encontrou seu criador adequado, algo parecido com o que Tom Ford fez nos anos 1990. Depois de 10 anos na Balenciaga, Demna Gvasalia fez a coleção The Store (A Loja), representando a mudança no setor do varejo de luxo. Entrar numa loja da Gucci deixa de ser intimidante, já que as coleções estão à solta nas redes sociais, nos sites, para quem quiser ver e…puder comprar. Além desta consciência de mudança, há as ousadias e requintes, muito logo em roupas e acessórios, típicos da vontade de ostentar o uso da marca famosa. Mas há tanto microssaias como calças curtas, saias abaixo dos joelhos, homens de capas (lindas), sapatos de bico fino. Atitude de mãos nas cinturas ou nos bolsos. Alguns casacos, já que a marca pretende alcançar os dois hemisférios. O desfile seguiu o caminho do entretenimento, não apenas mostrou looks e penteados. Porque o Ryan Murphy, roteirista de séries como Monster, American Crime Story, e outros na Netflix, foi o responsável pelo styling. Tudo certo, tudo atual.
No passo da hora

Quem se importa com a temperatura do dia ou da noite? Se a proposta vale, muda nossa vida (um pouco de exagero sempre diverte), vale casaco de pele no verão ou biquíni no inverno. Isto dito, vamos aos sapatos que renovam o look. Primeiro, os tratorados. A Gucci lançou o tradicional mocassim comum solado digno de um pneu de caminhão. Pronto: foi dado o sinal para subir os solados em muitos centímetros e ainda dar um aspecto pesadão, que vai contrastar até com vestidinhos de verão. Melhor ainda, com meia curta branca. No canto, à esq., sandália Prada (US$ 650) / abaixo dela, sandália tipo pescador da Miumiu (US$ 450) / modelo fechadão Prada (US$ 710). No alto, à dir. modelo Schuzt (R$ 670) e com solado alto, sem tratorado, o chinelo Melissa Free Performance (R$ 239,90) Botas: elas voltam com tudo. Poucas de cano alto, muitas baixinhas, de cano curto, material macio – nem sempre é couro de verdade, mas o efeito é o mesmo. Cano curto, muito conforto, da Outer (R$ 629) / abaixo, à esquerda, no padrão clássico da Gucci ( R$ 1.619) / um grande coturno D-unit Dior (R$ 4.590) / cano curto, salto baixo, Via Mia (R$ 309,90) e na foto maior, coturno Soulier (R$ 389,90) . Mocassins:Depois, quase na mesma linha de peso, os mocassins. Mas eles têm enfeites, contas, paetês, cristais. Prioridade para (mais uma vez) a inspiração Gucci, que relançou a linha horsebit, aquela de metalzinho hípico: é moderna, ao mesmo tempo retrô e chic À esquerda, no alto, da Sonho dos Pés, um clássico em couro ecológico (R$ 219,90) / ao lado, Margot (R$ 350) / no alto, à direita, com contas na gáspea, Cris Roberto (R$ 179). Na parte de baixo, no estilo horsebit, da Hackamore (R$ 990) e o de paetês da Mumu (R$ 199,90) Delicados: Quem não curte sapatos pesados tem a opção delicada. Do saltinho sabrina (ou kitten, como querem as colegas americanas) às sapatilhas bicolores, vale toda esta feminilidade. Nota-se que o salto exageradamente alto (até 12cm!) perde a importância. Lá no alto, à esquerda, de biqueira escura, Arezzo (R$ 359,90) / ao lado, sapatilha Seraphine Gucci ( R$ 9.876,42) / No canto esquerdo, sapatilha Kitten Marc Jacobs (R$ 3.447) / ao lado Mary Jane da Sapato Preto (R$ 319,90); sandália zebrada Reversa (R$ 384), no alto, com pulseira de pérolas Mimou (R$ 247,90); no canto direito, sapatilha oncinha Ana Capri (R$ 219,90) Os preços foram recolhidos dos respectivos sites das marcas em 25/08/24. Nas pesquisas ficou evidente que, antes de entrarem nos saldos, poucos sapatos custam menos de R$ 300. Como a história da falta de importância das estaçíµes, os preços altos são diluídos em parcelas tentadoras. Só lembrem que no cartão, o preço total reduz o limite para futuros gastos… .
Homens à moda de Milão

Se Paris manda na moda feminina e na perfumaria (apesar de a Acqua di Parma ser uma maravilha italiana), Milão e Florença arrasam na roupa masculina. Os lançamentos reforçam a combinação de tradição, com muita alfaiataria repensada, o artesanal, com bordados e tratos com matérias-primas como o couro, e mais o olhar para o Futuro, quando as mudanças provavelmente acontecerão na moda dos homens. Enquanto isto, o bom consumo dos países asiáticos provoca a convocação de muitos modelos orientais nos elencos e inspiraçíµes nas culturas chinesas e japonesas. Zegna, toda no linho Zegna:Terno cinza com dobra xadrez; bermuda e blazer; preto total e o lenço no pescoço com veste de um botão. Tudo em linho Alessandro Sartori, diretor artístico da grife Zegna, mostrou a Oasi Lino, coleção toda em linho. É uma viagem através do espaço e artesanato, do perto e longe. Cento e noventa e dois fardos de linho bruto vindos da Normandia, onde é cultivado com flores azuis no verão, ocuparam uma praça perto do Scala de Milão, em meio a construçíµes históricas, em plena luz do dia. Emporio Armani Emporio Armani: Clássico, em cáqui e preto; terno jaquetão branco; colar sem camisa; folhas de gingko bordadas ou estampadas O tema é o gingko biloba, planta de origem chinesa de 200 milhíµes de anos! Entremeado com elementos do ecossistema da ísia, a elegância Armani se mistura com os bordados da folha, como um toque artesanal requintado, tanto em camisas de trama aberta como em lapelas de terno. Um estilo que une elementos tradicionais asiáticos com a estética européia. Dolce & Gabbana, serenos Dolce&Gabbana: clássico: terno risca de giz; punhos longos na camisa; cabelos com franja; legging/ceroula, sobretudo e camisa pra quê? Dolce & Gabbana não deixam de lado a extravagância, mas a moda de verão ganhou o nome simples de Style. Mais uma vez, como se esperava pelas previsíµes, é uma mistura do clássico com o moderno. Há bordados de flores, peças oversized, com mangas ultrapassando as mãos, um clima natural de serenidade. Pelo menos, esta foi a intenção da dupla Domenico Dolce e Stefano Gabbana. Como ser sereno sacudindo estas mangas para pegar uma taça de vinho? Ou abrir uma porta? Fendi, industrial Fendi: ambiente de fábrica, camisão e calça cáqui; camisa com escritos; bolsa com aplicaçíµes de ferramentas; sobretudo com logo e café na mão A Fendi, assinada por Silvia Venturini Fendi, homenageou a ligação entre Florença e a marca fundada por sua avó há quase um século. O desfile foi na fábrica em Capanuccia, nos arredores da cidade onde a fundadora aprendeu a arte do trabalho em couro, o que motivou o conceito da combinação de artesanal e trabalho, de industrial e o feito à mão. Ferramentas enfeitam as bolsas, há um ar de uniforme operário. Valentino, para a nova masculinidade Valentino: Terno com saia; lenço esvoaçante e bermuda; estampa de floríµes e o terno com frase de livro As definiçíµes de masculinidade andam sendo revistas, exigindo uma perspectiva diferente na criação. Pierpaolo Piccioli, diretor criativo da Valentino masculina, assina a coleção Narrativas, desafiando as convençíµes da vida, das roupas e a essência da masculinidade moderna. Estas mudanças, vistas em todas as coleçíµes na Itália, incluem paradoxos visíveis: a fragilidade tem força, a gentileza tem poder e a imperfeição ganha status de perfeição. E mais um toque oriental no terno com a frase “We are so old, we have become young again.†(somos tão velhos, que nos tornamos jovens de novo) do livro A Little Life, de Hanya Yanagihara, americana/japonesa nascida no Havaí. Gucci, de mocassim Gucci: clássico: terno em príncipe de gales; mocassim homenageado na coleção com bolsão, inspiração no skate e terno vermelho A roupa é bonita? Os acessórios, irresistíveis? Mesmo que nada disto fosse verdade, Gucci convence pela própria e turbulenta história de 70 anos de inovação. Desta vez, a coleção homenageia…o mocassim famoso, chamado Horsebit Loafer, o modelo com uma espécie de bridão na gáspea. Este detalhe se repete em estampas, acessórios diversos e claro, em novos mocassins de solados tratorados, usados com meias caídas. As bolsas continuam cobiçáveis, mudam um pouco na forma, no jeito de alça, mas conservam a logo e a faixa em verde e vermelho para rápida identificação nas redes sociais. Ou seja, Gucci é Gucci, e surpreendeu mesmo com a saída de Alessandro Michele, que tinha dado o impulso para esta nova fase, desde a saída de Tom Ford nos anos 1990. Gucci é coisa de colecionador. Quem não quer um mocassim pesadão, com a ferragem na gáspea? BOX: Segundo Alessandro Sartori, esta é a rota da roupa dos homens: “Na ZEGNA continuamos a repensar como deve ser um guarda-roupa eficiente, aprofundando a ideia de criar um sistema de elementos – partes de cima, de baixo e acessórios – que podem ser combinados e estilizados da maneira que preferir. É a ideia do uniforme que não incita à uniformidade. O terno como conjunto combinado de paletó e calças não se aplica mais. Hoje em dia, tudo combina com tudo. As linhas são enganosamente simples: escondemos elementos funcionais na construção. A fluidez geral faz parecer tudo tranquilo e luxuoso, mas a atenção nos detalhes, a riqueza das cores e a liberdade de infinitas combinaçíµes sugerem algo nada tranquilo” Certíssimo, o Sartori Um dos detalhes fortes que dão um aspecto romântico na roupa dos homens é a escrita. Poesia, frases de livros, até declaraçíµes de amor. dão um toque lírico nas camisas, paletós e mesmo nas costas de jaquetas. Não é para falar só do meu coreano favorito, mas o Dong Hae já exibiu uma camisa com uma frase. Ainda não consegui uma foto que mostrasse a frase inteira, mas deve ser algo dirigido às Elfs (fãs). Muito bonito o terno do Valentino, com a frase de um livro de sucesso. E a camisa Fendi, mais discreta. Repito aqui estes looks
Estava previsto

Poucas vezes vimos uma marca sair do marasmo e ressurgir surpreendente. Durante oito anos Alessandro Michelle conseguiu tirar a Gucci do status de marca antiga, sem perder os símbolos próprios. Fosse pelas coleçíµes, pela cola com nomes como Harry Styles ou pela escolha dos locais de desfiles (o mais bonito, um castelo no interior da Italia), ele trouxe a Gucci para as notícias tanto de moda como de fofocas e celebridades. Quando anunciaram que ele sairia, deu desânimo. Quem poderia substituir, quase na hora de recomeçar a temporada de coleçíµes? Tinha razão quem se preocupou. Um grupo da equipe de design assina a coleção masculina do inverno de 2023/2024. Marco Bizzarri continua como CEO, homem de confiança do grupo Kering. Terá sido ele o autor desta mudança? Preciso descrever, ou bastam as fotos pra ver o caos? Nem caos se pode chamar, é marasmo mesmo. Parece uma mistura de Gaultier das antigas (camisetas listradinhas), com básicos da Diesel, um conjunto sem pé nem cabeça, com metalizados, jaquetas, casacos de pelos no avesso. Ok, a nova onda traz este estilo meio brechó. Mas Gucci tem que ir além. Esta coleção não chega a ser lançadora nem comercial. Até porque duvido que os preços baixem.
Resort Gucci tem rock e jardins

Mais importante do que a variedade de propostas que o designer Alessandro Michele mostrou na coleção resort da Gucci foi o fato do desfile de segunda-feira se realizar no Palacio Pitti, monumento histórico/turístico em Florença. Obras de Rubens, Tintoretto e Caravaggio, do acervo do museu Uffizi devem ter feito parte do precioso cenário. Mas voltando à importância que destaco, a Gucci vai investir mais de dois milhíµes de dólares durante três anos para manter os jardins do Palácio. Maravilha. A grife italiana é baseada em Florença, a última vez que desfilou por lá foi ainda nos tempos de Tom Ford, me parece que nos anos 1990. Depois de ressaltar este feito, vale contar da inspiração rock/ renascentista da coleção, bastante influente nos atuais movimentos da moda. Porque reuniu elementos populares, como as camisetas – só não gosto da expressão “Guccify me”, tirada de “crucify me”, letra de uma música do Elton John. Os jeans continuam, os blazers super bem cortados, também. No colorido, o pink tem sua graça, os verdes azulados, lembrando penas de pavão, estampas de tapeçaria com rosas em ternos masculinos, e um longo branco em trompe l’oeil, como se fosse uma veste de deusa grega. Um detalhe forte: o logo da Gucci reforçado, contrariando quem diz que é cafona ter logos de marcas nas roupas ou acessórios. Pois os bolsíµes (sim, elas aumentaram de tamanho) têm a faixa verde e vermelha, várias peças ostentam a palavra Gucci. “É um símbolo pop, um poder da empresa”, declarou Michele na coletiva. Fotos WWD
Gucci, as origens dos bichos

Quando começamos a ver determinados detalhes surgindo em muitas coleçíµes, é certo que alguém com poder de referência deu o ponto de partida no tal detalhe. Alessandro Michele, atual designer da Gucci, há dois anos começou uma história de tigres, serpentes e dragíµes circulando nas roupas. Bordados, aplicados ou estampados, estas imagens andam pelo mundo, com etiquetas diversas. Pois o pobre do Alessandro ganhou críticas meio decepcionadas, justamente por insistir, nestes dois anos, em manter os bichos na coleção. É a tal incoerência da moda: se um designer assume uma marca e mantém o estilo, leva bronca por ser conservador demais, nnao apresentar novidade. Se muda tudo, além da bronca por desrespeitar o DNA da marca, ainda por cima vende pouco, por ser muito fora do que a clientela espera. Depois de ter Tom Ford à frente nos anos 1990, seria muito difícil a Gucci reconquistar o posto de referência sexy e jovem. Mas o Alessandro Michele pelo menos devolve à grife italiana o poder de referência de estilo, com seus bichos de jeito japonês. Outra mudança na Gucci atual, a iluminação. No lugar da sala escura, só com um canhão de luz, foi um mundo cor de rosa. Mas o que é aquele look masculino? E aquela baita pantalona de alfaiataria?
Gucci x Magritte

Gucci sempre foi marca de vanguarda, apostando em referências de Arte em novos projetos. O novo diretor de criação, Alessandro Michele lançou Gucci Blooms (estampas florais) e Gucci Caleido (estampas geométricas), com propostas gráficas de 31 talentos e ilustradores online do mundo inteiro para interpretar as estampas das novas coleçíµes. Os trabalhos deveriam incluir referências em trabalhos de artistas famosos, cartoons, ilustração, pintura e texto. E mais, óbvio, o foco nos produtos e nas estampas. O resultado deu certo na maioria das obras, já que deu a noção da relação entre herança tradicional e contemporaneidade. Não escondo a razão da minha escolha de imagem, já que curto a obra do Magritte (o belga surrealista René Magritte, que anda na moda há pelo menos uma década). Pena que o informativo da Gucci não diz o nome do autor. Até na carteira há a relação entre a tradição – no uso do jacquard clássico da Gucci – e o contemporâneo – na estampa recortada de flores rosadas
Masculinos / Gucci dá a cartela

Laranja, azulão, ocre, verde, pink – haja Pantone para reconhecer as cores que a Frida Giannini botou nos ternos da Gucci. De novo, como em todos os desfiles até agora, em Milão, a ordem é encurtar as calças e ajustar os paletós. Meias são dispensáveis – isto ainda é conceito avançado demais para a maioria dos homens, ficar de canelas de fora. Já pensaram, um executivo em reunião, cruza as pernas e exibe aquela canela peluda? A Gucci tem camisas de estampa de lenço, bastante duvidosas como gosto, e mantém os maravilhosos mocassins, seguindo as cores dos looks. Mas o que se impíµe como ponto forte é a volta do jaquetão, ou paletó de quatro botíµes, transpassado.
